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Solidão no poder

      
Por Lilian Burgardt

"...fez-se do amigo próximo o distante;
Fez-se da vida, uma aventura errante;
De repente, não mais que de repente."

(Soneto da Separação - Vinícius de Morais)

Ainda que o Soneto da Separação do poeta Vinícius de Morais tenha um quê de melancolia, típico dos fins de caso, a passagem acima também diz muito para aqueles que vivem no dia-a-dia profissional a sensação de estar só. Fiel companheira de quem está no poder e, portanto, com a vida dos subordinados nas mãos, a solidão tende a tirar o sono de muito gestor. Ainda que afete mais intensamente aqueles que têm maior sensibilidade, o abismo entre o universo da chefia e dos subordinados assusta e atrapalha mesmo quem tende a tirar de letra as adversidades do mundo corporativo.

A psicanalista e diretora executiva da Lens & Minarelli, Mariá Giuliesi, apesar da larga experiência com treinamento de executivos também já foi vítima da solidão do poder. Após ter sofrido com as angústias de tomar decisões sozinha e, muitas vezes, não ter com quem desabafar sobre amenidades, Mariá diz que o "solitário" não deve se isolar do mundo e nem achar que é o único a sofrer com a "indiferença". Vale procurar com seus pares - seja em outras companhias, ou mesmo em um "guru" - no caso da psicanalista, um psicólogo mais experiente - para ajudar a driblar a solidão.

Muda o cargo, mudam as relações

"Sentir-se só é absolutamente normal para quem ocupa um posto de decisão. O chefe terá dúvidas, medos, inseguranças, mas não poderá consultar seus subordinados para ajudá-lo. Daí, a solidão acaba sendo natural da função", explica a psicanalista. Tende a sentir mais os impactos da solidão o novo chefe promovido vindo de uma equipe onde imperava o clima amistoso. De uma hora para outra, os colegas de trabalho viram funcionários e a abertura para comentar assuntos estratégicos da empresa não existe mais. "Não adianta achar que o clima por parte dos funcionários não pode mudar, se muda a sua função e a relação entre ambos. Eles não poderão falar tudo para você, mesmo porque você também não poderá falar tudo para eles."

A consultora da Career Center - empresa de treinamento de executivos - Vera Vasconcellos, lembra que não administrar essa mudança nas relações causa uma cobrança até injusta em relação aos antigos colegas. ? muito comum que os executivos fiquem chateados por não sentirem mais aquele companheirismo em relação aos colegas e vice-versa. O ruído que gera essa mudança de comportamento é quase sempre fatal para a saúde das relações. "Assim como é preciso separar o pessoal do profissional, é necessário entender a natureza das relações, e o relacionamento entre superior e subordinado é bem diferente do que de par a par", destaca.

Antes, porém, de entrar em conflito com aquele seu antigo "camarada", a ordem é ter uma boa conversa. "Muitas vezes, você está vivendo a mesma angústia que ele. Ainda que não haja esperança de que o relacionamento seja igual ao de antes, uma boa conversa pode dissipar qualquer mal-entendido." Na opinião das especialistas, uma conversa franca também pode ajudar a evitar abusos, como por exemplo, entrar na sala do chefe sem ser comunicado ou acreditar que, por ter um relacionamento de amizade, suas demandas, anseios ou frustrações serão resolvidas com prioridade pelo gestor. "A relação de amizade no trabalho é algo bem complexo. ? preciso ter muita ética para não perseguir o amigo, achando que ele tem a obrigação de servir melhor, como também, blindá-lo de erros que prejudicam a empresa e os demais colegas de trabalho."

Segundo Vera, ainda que você tenha que "chamar o seu amigo/funcionário de canto", é melhor avisar que ele não pode entrar na sua sala a qualquer momento nem desrespeitar a hierarquia da empresa valendo-se da relação de amizade entre vocês, do que deixar que tal comportamento se torne rotina. Embora não seja um "nepotismo" direto, por não se tratar de um familiar, "o protegido" que se comporta desta maneira ajuda a manchar a imagem do gestor, além de gerar inimizades dentro da empresa. "Impor limites de espaço é o primeiro passo para manter uma relação saudável." Vale lembrar que nem sempre estes limites precisam ser diretamente pré-estabelecidos. Profissionais maduros ou conscientes, dificilmente se comportarão de maneira inadequada. Nestes casos, uma conversa franca sobre as dificuldades com a nova relação chefe-subordinado é o suficiente.

Amenidades do dia-a-dia

Muita gente se pergunta: será que eu posso manter uma relação mais próxima com meus subordinados? Segundo Mariá, o segredo do bom líder (diferente de quem ocupa só o cargo de gestor) é inspirar os colaboradores a darem o melhor de si para a empresa. Para despertar esse sentimento não precisa ser frio, tampouco o boa gente. "A relação de liderança nada tem a ver com tratar com frieza ou ser o camarada que freqüenta happy hours, por exemplo, mas com a maneira de conduzir uma equipe produtiva e orientada para resultados", diz a psicanalista.

Se você pode ou não almoçar com os colegas, também não é uma preocupação que deve tomar sua agenda. Se você está na empresa há mais tempo, é natural que tenha mais afinidade com um profissional em detrimento de outro. Convidá-lo para almoçar ou aceitar o convite não é problemático desde que as relações profissionais não sejam postas à mesa. "Se o gestor tem o costume, se sente bem e não deixa que esse relacionamento mais próximo atrapalhe nas decisões da companhia, ele está livre para almoçar com quem quiser", ressalta Vera. ? preciso, porém, estar atento à repercurssão que isso terá na empresa. "Não é sadio que em conversas de corredores determinado funcionário se vanglorie de ter uma abertura maior com a chefia, tampouco, que isso gere ciúme entre os outros subordinados", conclui.

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