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O Alienista em quadrinhos

      

Por trás da versão HQ

"O Alienista" - obra transformada em Graphic Novel e publicada pela editora Agir - foi idealizada pelas mãos dos irmãos gêmeos, Fábio Moon e Gabriel Bá, ambos formados em Artes Plásticas e adoradores de histórias em quadrinhos ou "contadores de histórias em quadrinhos", como gostam de ser lembrados.

Donos do blog "10 pãezinhos" em que contam juntos suas histórias diárias, os autores têm entre os seus feitos, obras como O Girassol e a Lua (2000) e Meu Coração, Não Sei Por Que (2001), publicados pela editora Via Lettera. Além disso, contam com prêmios como o Xeric Foundation Grant, ganho pela publicação da minissérie Roland - Days of Wrath (1999).

Sobre o recente trabalho Fábio Moon esclarece: "O que muda na adaptação de um texto como O Alienista é o apelo visual. Para criá-lo fizemos uma pesquisa sobre vestimentas da época e analisamos as melhores cores. Optamos pelo amarelo, por manter as características de um livro antigo".

Como em toda adaptação, algumas partes tiveram que ser transformadas para que a história se "encaixasse" aos quadrinhos, algo que, segundo Fábio, não interferiu na obra como um todo. "Em alguns trechos, adaptamos a imagem e a narração virou diálogo, mas por se tratar de um livro pequeno, conseguimos manter quase todo o texto original. A idéia era ser o mais fiel possível", acrescenta.

Em época de vestibular, as obras de leitura obrigatória acabam deixando todo mundo de cabelo em pé. ·s vezes, é necessário ler um, dois ou até três livros ao mesmo tempo para dar conta de tudo. Nessas horas de sacrifício em prol de um bem maior, nada como poder juntar o útil ao agradável. Para os adoradores e simpatizantes de histórias em quadrinhos, surgem os Graphic Novel, obras adaptadas de grandes clássicos da literatura brasileira, como 'auxiliares' na leitura dos livros.

Os Graphic Novel nada mais são que histórias em quadrinhos, adaptadas ou não, de obras com grande número de páginas. O fato de conter histórias mais longas ou diferentes dos quadrinhos tradicionais, não quer dizer que sejam voltados exclusivamente para um público leigo, podendo ser apreciado por pessoas de qualquer idade e com maior conhecimento da obra. Além disso, a linguagem visual contida nos quadrinhos pode dar ênfase a pontos importantes, talvez desfavorecidos numa leitura sem qualquer tipo de imagem. Por esta razão, nesse tipo de trabalho, cores traços e nuances são muito valorizadas, alem é claro, da interpretação de cada desenhista, que tem um jeito próprio de dar vida às histórias.

As HQ's também podem ressaltar questões que acabam passandodespercebidaspara uma pessoa que não conheça o estilo literário de certos escritores, ou que não esteja bem informado sobre os acontecimentos relevantes da época em que o livro é narrado, como acontece com a adaptação de o Alienista, um dos últimos lançamentos em Graphic Novel, publicado pela editora Agir. "Machado de Assis, tem uma narrativa que prepara o leitor para lidar com a ambigüidade em seus textos. ·s vezes, a ilustração pode ajudar a condensar melhor o que o autor quis passar", analisa a orientadora do Programa de Literatura e Crítica Literária da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Maria José Palo.

Mas vamos com calma. Se ao ler tudo isso, a primeira idéia que passou pela sua cabeça foi trocar a leitura do livro original pela versão em quadrinhos é melhor rever sua estratégia. Apesar de mais atrãntes e relativamente mais fáceis, os quadrinhos não podem substituir as obras literárias originais. "A fidelidade da história, quando adaptada para os quadrinhos, pode ser afetada. Quando há uma mudança do código, há também uma mudança de representação do que será lido. Assim, conhecer o texto original é importante para ter uma crítica diferenciada dos dois estilos", alerta Maria.

O conto

"O Alienista" - escrito por Machado de Assis e transformado em quadrinhos pelas mãos dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Ba - é uma narrativa em terceira pessoa e tem como principal recurso de linguagem a ironia. Segundo o professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculos da Faculdade de Filosofia e Ciências da USP (Universidade de São Paulo), Valentim Facioli, a ironia nessa história, é usada para contestar a ciência e a arrogância do cientista, assunto bastante explorado no final do século XIX. "Machado de Assis usa a ironia como arma central, porque, além de tudo, sabia sobre as correntes científicas e sociológicas em pauta na época. ? um autor extremamente informado sobre o que acontecia ao seu redor. O que faz com que ele trabalhe de maneira coesa as ambigüidades do texto", conclui.

Na pele do personagem Simão Bacamarte, fundador da Casa Verde - a casa dos alienados - o livro faz uma crítica à sociedade politizada da época e ao universo realista em que estavam inseridos. "Simão é o personagem principal. ? ele quem faz a ligação entre a ironia e o pensamento científico que está sendo satirizado. Em geral, a construção do texto gira em torno dele", esclarece o mestre e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Hélio de Seixas Guimarães.

Com suas teorias acerca da loucura e sanidade, o protagonista acaba criando um caos na pequena cidade de Itaguaí, no interior do Rio de Janeiro, com a abertura do manicômio. Primeiro, lança a teoria de que, na verdade, os loucos eram aqueles que tinham comportamento fora do considerado "normal", para os padrões impostos pela sociedade. Depois, em uma mudança repentina (mas não menos absurda) de conceito, passa a acreditar que os verdadeiros "loucos" eram os que possuíam uma regularidade extrema de caráter. Tudo em nome do progresso da ciência.

"Nessa obra, assim como em outras de Machado de Assis, o leitor deve ficar atento ao pacto de leitura que o texto propõe. Em O Alienista é: vivemos em um mundo de loucos e o leitor não está excluído desse mundo. Se, de ínício, o leitor perceber essa máxima, perceberá que os valores e as verdades ficarão mais claros", enfatiza Facioli.

A dica geral para a leitura de O Alienista é: leia tudo, do começo ao fim. Por se tratar de um conto pequeno (composto de treze capítulos), todas as partes são imprescindíveis. Além disso, é importante não ficar apenas em um primeiro nível de leitura. Ler a respeito da escola literária da época, também ajuda a "clarear" as dúvidas. Segundo Hélio, vale destacar ainda que existem fortes paralelos entre a história Machadiana e o mundo de hoje, em que os políticos, cientistas, e nomes influentes continuam fazendo a 'cabeça' da população com suas teorias. "Machado, é sempre um tema atual", conclui.

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