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Brasileira ganha prêmio da ONU por "iniciativa verde"

      
Por Lilian Burgardt

Uma pesquisadora brasileira faturou um prêmio do UNEP - programa de meio ambiente da ONU (Organização das Nações Unidas) - por sua idéia inovadora. O prêmio contemplou os melhores projetos de instituições de Ensino Superior e de pesquisa, além de trabalhos realizados pela iniciativa privada. Todos vindos de países em desenvolvimento, que abordaram a "avaliação do ciclo de vida", metodologia que monitora os impactos ambientais da produção industrial.

A mineira Danielle Maia de Souza, que é doutoranda da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), integra o grupo de pesquisa em avaliação do ciclo de vida e recebeu duas premiações durante a "3rd International Conference on Life Cycle Management", que ocorreu entre os dias 27 e 29 de agosto, em Zurique, Suíça.

O primeiro prêmio (LCA AWARD - UNEP/SETAC Life Cycle Initiative Award for LCA projects in Developing Countries) lhe foi entregue por Arab Hoballah, chefe do Ramo de Consumo e Produção Sustentável da Divisão de Tecnologia, Indústria e Economia do Programa Ambiental da ONU, no dia 28 de agosto. O título concede dois anos de licença de uso do software UMBERTO, especializado em avaliação do ciclo de vida.

O segundo prêmio (PR? CONSULTANTS AWARD for Best Non OECD Presentation at LCM 2007) foi relativo à sua apresentação ter sido escolhida como a melhor dentre aquelas de palestrantes de países emergentes. Ela o recebeu das mãos de Mark Goedkoop, autor do método de AICV Eco-Indicator 99. Esta segunda premiação garante um financiamento de 4 mil Euros fornecido pela organização Pré-Consultants, que realiza pesquisas em avaliação do ciclo de vida.

O evento que ocorreu em Zurique contou com a presença de mais de 500 participantes do setor acadêmico e industrial. Palestras foram realizadas em diferentes tópicos em avaliação do ciclo de vida. Neste evento, também foi anunciada a publicação da obra "UNEP/SETAC LCM Business Guide", importante para a divulgação dos conceitos em gestão do ciclo de vida.

Em entrevista ao Universia, a pesquisadora conta como foi a experiência de ter recebido o prêmio e destaca quais serão os próximos passos de sua pesquisa.

Universia - De onde surgiu a idéia de se inscrever para um prêmio como esse?

Danielle Maia de Souza - Na época do lançamento do prêmio, estava desenvolvendo minha tese de doutorado na UFSC cujo tema era a criação de uma ferramenta de avaliação do ciclo de vida totalmente brasileira, ou seja, que avaliasse as especificidades do ecossistema de nosso país mediante a produção e lançamento de um produto industrial. Até hoje, utilizamos a tecnologia de países europeus; países da América do Norte, como Estados Unidos e Canadá; ou do Japão.

Nosso grupo desenvolve pesquisas principalmente em metodologia, por acreditarmos na importância de adequá-la às condições brasileiras, antes de aplicá-la. Nos preocupamos muito com a precisão da aplicação da ferramenta de avaliação do ciclo de vida em condições brasileiras. Trabalho com a proposição da estrutura de um método de avaliação de impacto do ciclo de vida. Em nosso grupo, há outros trabalhos sendo desenvolvidos para o aprimoramento de elementos como normalização em avaliação de impacto do ciclo de vida, alocação em inventário do ciclo de vida. O prêmio era uma chance de apresentar a idéia e, quem sabe, contar com a colaboração de outros pesquisadores.

Universia - No momento em que a preocupação com o meio ambiente chega a estar na moda em todo mundo, especialmente em decorrência do aquecimento global, qual a importância que a senhora vê para o projeto em termos de monitoramento da produção industrial e seus impactos ambientais?

Danielle Maia de Souza - As ferramentas para medir os impactos ambientais são cada vez mais importantes frente às mudanças climáticas e as alterações no meio ambiente nos últimos anos. Diante disso, é fundamental que seja acompanhada e avaliada a produção industrial desde a extração de matéria-prima, emissão de gases poluentes, transporte, ou seja, o ciclo de vida do produto inteiro, desde sua produção até a disposição final.

A ferramenta que trabalho avalia o que obtenho com a transformação da matéria-prima em termos de impacto ambiental do tipo: aquecimento global, desgaste do solo, depredação da camada de ozônio, entre outros. Ao longo de nosso trabalho, o grupo percebeu que essas ferramentas para medir o impacto do ciclo de vida são muito desenvolvidas no exterior, mas percebemos a necessidade de adaptar tais ferramentas para um país de grande extensão territorial como o Brasil.

Universia - Em sua opinião, nosso país já despertou para a necessidade de monitorar e avaliar os impactos do lançamento de novos produtos no meio ambiente? Seu projeto caminha nesta linha de conscientização?

Danielle Maia de Souza - Infelizmente poucas indústrias, dentro e fora do país, dão atenção à forma como sua produção interfere no meio ambiente e pode causar prejuízos em curto, médio e longo prazo. Há esperança, porém, de que com as crises latentes e os efeitos do aquecimento global em destaque, haja uma mudança de comportamento. Nosso projeto tem essa preocupação. Um dos principais objetivos é fazer com que a indústria brasileira tenha acesso a essa ferramenta de avaliação e possa utilizá-la para monitorar os impactos do lançamento de seus produtos no meio ambiente.

Universia - Qual a importância de ter sido contemplada com o prêmio?

Danielle Maia de Souza - A conquista de um prêmio como esse é mais ou menos como um selo de qualidade para o projeto, mostra que a idéia tem viabilidade. Além disso, ter participado da premiação permite que mais pesquisadores, tanto brasileiros, como estrangeiros, possam ter acesso ao trabalho, algo que desejamos muito. Será muito importante contar com novas opiniões para o desenvolvimento de uma ferramenta brasileira que tenha participação não só dos pesquisadores da UFSC, mas o aval de especialistas das mais diversas regiões do país, além de colaborações internacionais.

Universia - Quem não a conhece, mas vê a sua foto e deduz sua pouca idade, logo pensa: "como uma pesquisadora tão jovem pode ter ganho um prêmio com tamanha importância?" Conte um pouco de sua experiência até para desmistificar a idéia de que só pesquisadores com anos de estrada podem ter reconhecimento.

Danielle Maia de Souza - Tenho 29 anos, sou bacharel em Engenharia Ambiental pela Brandenburgische Technische Universitãt Cottbus, B.T.U., Alemanha; concluí a graduação em Arquitetura e Urbanismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) onde também trabalhei na área acadêmica relacionada à tecnologia da Aquitetura. Tenho especialização em Manejo e Gestão Ambiental na Agroindústria pela UFLA (Universidade Federal de Lavras); concluí o mestrado sanduíche em Engenharia Sanitária Ambiental, parte na UFMG, parte, novamente, na Brandenburgische Technische Universitãt Cottbus. Por último, estou cursando meu doutorado em Engenharia Ambiental na UFSC.

Vejo que há cada vez mais jovens ingressando nos mestrados e doutorados. Isso é muito positivo para pesquisa. Ainda assim, muitos jovens pesquisadores param na execução de seus trabalhos e não vão além, ou seja, não procuram se inscrever em prêmios, ou mesmo procurar outras formas de fazer com que sua pesquisa siga em frente trazendo um retorno para a sociedade que, aliás, é até nossa obrigação, uma vez que é o governo quem financia nossos estudos.

Universia - Diante do sucesso obtido com sua pesquisa, quais os próximos passos que a senhora pretende seguir? Como será feita a aproximação com a iniciativa privada para que as indústrias tenham acesso à versão brasileira da ferramenta de avaliação do ciclo de vida?

Danielle Maia de Souza - Pretendo continuar o desenvolvimento desta pesquisa, agora, com suporte de pesquisadores canadenses e suíços, contatos feitos a partir da premiação em Zurique. Também faz parte de nossos planos o desenvolvimento de uma metodologia de aprimoramento da ferramenta. Em meados do mês de agosto, lançamos um site (www.ciclodevida.ufsc.br) para divulgar nosso trabalho tanto para a indústria, como para pesquisadores da área em geral. A intenção é unificar as informações sobre o que é a ferramenta, além de criar uma terminologia internacional que facilite a discussão em torno do tema. Hoje, isso não existe, o que dificulta a comunicação entre os pesquisadores.

Pretendemos, ainda, criar um centro de pesquisa em avaliação do ciclo de vida. Se possível, com parceria da iniciativa privada, até para resolver o problema da falta de visibilidade que o mercado dá para uma ferramenta que permite melhorar os processos e os custos dos impactos ambientais de sua produção. Queremos mostrar para a indústria que a decisão de avaliar os impactos ambientais também é importante do ponto de vista econômico.

Universia - Que tipo de informações podem ser encontradas no site criado para a divulgação da ferramenta? Além disso, de que outras formas a senhora pretende fazer a divulgação do trabalho?

Danielle Maia de Souza - A idéia é publicar um livro sobre o tema e "emplacar" artigos em revistas internacionais. O fato de o tema ser recente, há grupos que trabalham com avaliação do ciclo de vida há, no máximo, cinco anos, permite que tenhamos uma abertura maior para discutir os aspectos de riscos ambientais.

Em relação ao site, disponibilizaremos gratuitamente o acesso com o objetivo de difundir e aprofundar as discussões sobre o tema. Os usurários poderão conferir as principais atividades relacionadas à área, links com base de dados em avaliação do ciclo de vida, novas pautas e trabalhos em termos de avaliação do ciclo de vida, além dos eventos que estão ocorrendo.

Universia - Qual a mensagem que a senhora deixaria para que outros pesquisadores se sentissem motivados a não só concluir seus trabalhos de mestrado e doutorado com empenho, mas procurar alternativas de viabilizá-lo para o mercado?

Danielle Maia de Souza - Na verdade, amo o que faço. Para mim é este "pequeno aspecto" que faz a diferença. Descobri a Engenharia Ambiental em 1999 e nela, com o passar do tempo, o campo da gestão ambiental, que não é pequeno e engloba diversos aspectos. A minha satisfação em saber que minha pesquisa tem sido reconhecida é saber que estou prosseguindo no caminho certo. Espero contribuir de forma concreta para alguma melhoria no campo ambiental.

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