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Liderança é requisito até para quem não vai comandar

      
Por Lilian Burgardt

Que o diga quem está à procura de uma vaga no mercado de trabalho: liderança é fundamental. Até os programas de trainee, cujo perfil de contratação se resume a jovens recém-formados, valorizam tal característica na hora de selecionar um candidato. Afinal, por que ter o espírito de líder é tão importante, se você não pretende ser o gestor de uma equipe, mas sim, trabalhar nos bastidores da linha de produção?

A resposta é simples, dizem os especialistas: até os operacionais trabalham melhor quando têm em si o espírito de líder que não está apenas ligado à arte de comandar, mas de estar um passo à frente na resolução de problemas e antecipação de soluções. "O líder é aquele que não espera o comando para agir, que tem idéias e traz respostas. Ele não precisa estar no comando da equipe, mas no comando de seu trabalho", explica a professora de liderança da BBS (Brazilian Business School), Irene Ferreira Azevedo.

Portanto, se nas avaliações feitas por seu gestor, o quesito liderança ainda deixa a desejar e você nunca se preocupou com isso por não ter interesse em comandar uma equipe, é hora de se mexer. Segundo especialistas, ao tirar pontos do funcionário na avaliação deste quesito, o gestor pode não estar querendo dizer "prepare-se para ser meu sucessor", mas "evolua para ser cada vez mais eficiente na resolução de problemas". "Há uma tendência natural dos profissionais de se acomodarem conforme vão crescendo na empresa. Ter liderança é saber que isso é fatal tanto para si, como para o negócio", diz a professora.

Atentas a isso é que as empresas passaram a exigir o perfil de liderança lá no começo, ainda no processo seletivo. O objetivo é preparar quem está entrando para lidar com situações de ambigüidade ou instabilidade, cenário em que é muito comum ter mais de três ou quatro chefes para decidir o futuro da companhia e passar tarefas para frente. Além disso, as companhias dão valor aos profissionais mais jovens que gostam de assumir riscos, em detrimento daqueles que preferem (e deixam bem claro) se sentir "mais à vontade" fazendo o "feijão com arroz" ao qual estão habituados.

Por causa dessa mudança no universo corporativo é que enfrentar desafios desde cedo prepara o jovem para lidar melhor com a vida profissional. Na opinião de Irene, para superar medos e lidar com a insegurança, vale investir em intercâmbio, mudar de escola, apostar num esporte. "Todas essas situações que exigem maior autocontrole", afirma ela. Agora, se você já está na empresa e percebe que tem deficiências quesito liderança, é bom buscar ajuda para trabalhar o autocontrole, identificando oportunidades para evoluir.

Liderar para chefiar

Ainda que os especialistas tenham uma visão bastante clara da importância da liderança para o sucesso daqueles que desempenham funções mais técnicas dentro das empresas, é bastante difundido o errado conceito de que líder é o chefe. Portanto, muitas empresas acabam selecionando jovens com garra, inteligência, percepção, pró-atividade e dinamismo. Enfim, características que o fazem brilhar no meio da multidão de operacionais, para fazê-lo ocupar um cargo de chefia. Aí começam os problemas. "Para comandar uma equipe, é preciso muito mais do que isso. ? necessário um treinamento para gerenciar conflitos e inspirar subordinados. Enfim, o gestor precisa ter traquejo e experiência para se dar bem em seu novo papel", ressalta a diretora da Lens & Minarelli, Mariá Giuliese.

Esta febre do mercado em colocar jovens no poder, independentemente do grau de preparo apresentado por eles, é responsável por grande parte da desmotivação e insatisfação de equipes. Foi o que constatou uma pesquisa encomendada pelo jornal Valor Econômico e realizada pela Lens & Minarelli envolvendo 250 executivos. A pesquisa mostrou que mais da metade (51%) dos executivos tem ou já teve um chefe mais jovem. E desse total, 63,9% revelou ter enfrentado algum tipo de dificuldade de relacionamento.

Entre as características negativas dos chefes mais jovens destacadas pelos entrevistados estão a imaturidade, com 60% das respostas, e a falta de experiência, 55,6%. "A imaturidade, por exemplo, é associada a comportamentos como arrogância, autoritarismo, insegurança, impulsividade, ansiedade, imediatismo, impaciência e competitividade exacerbada", afirma Mariá. Enquanto a inexperiência, se traduz na falta de conhecimento da realidade organizacional, de um relacionamento mais político e da percepção dos jogos de poder.

Mas por qual razão as empresas colocam em risco sua estratégia ao promover para um cargo de decisão alguém que ainda não está preparado? Segundo Mariá, há casos em que trata-se de uma falta clara de percepção do departamento de Recursos Humanos, mas há ainda, o fator "redução de custos" por trás de uma promoção prematura. "Em geral, jovens custam menos às empresas do que profissionais mais qualificados, experientes e com família".

Ao contrário, porém, do que muitos podem pensar, não são apenas os subordinados que sofrem com a promoção prematura de um chefe inexperiente, ele mesmo acaba sendo prejudicado. ? comum passar por momentos de tensão e virar alvo de críticas, perseguições e boicotes por causa de uma estratégia equivocada da companhia. "Não são raros os casos em que funcionários brilhantes acabam se tornando chefes medíocres, pondo em risco sua carreira por imaturidade", destaca Mariá.

A professora da BBS cita o filme Em boa companhia (In Goog Company - 2005) como exemplo de um estratégia equivocada da empresa. No filme, Dan Foreman (Dennis Quaid) tem 51 anos, é chefe de vendas de publicidade da revista semanal Sports America e leva uma vida, em geral, boa. Eis que surge Carter Duryea (Topher Grace), um jovem e audacioso publicitário de 26 anos que assume o cargo de Dan quando a Sports America é adquirida pela multinacional Globecom. O filme mostra como a inexperiência do jovem aliada aos conflitos do ambiente corporativo desencadeiam uma série de insucessos e levam a empresa a rever sua estratégia.

Dois tempos, lado a lado

A pesquisa da Lens & Minarelli revelou ainda que 61,9% dos entrevistados, se pudessem escolher, dariam preferência a chefes mais velhos. Entre as razões destacadas estão aspectos como: experiência, maturidade, flexibilidade, melhor compreensão da realidade organizacional, segurança no trato com conflitos e empatia com os funcionários. "Na verdade, o que as pessoas esperam dos mais velhos é sabedoria para lidar com os problemas e com as pessoas, por acreditarem que os mais jovens cometem erros já conhecidos e vivenciados por eles", explica Mariá. "Não é à toa que há uma sensação de que algo está errado quando a relação de idades está invertida."

No entanto, acrescenta ela, nem todo jovem promovido está fadado ao fracasso. "Há pontos positivos de uma liderança jovem que se combinados com a sabedoria de executivos tarimbados resultarão em um modelo de gestão equilibrado", afirma Mariá. ? preciso preparar o jovem para exercer a chefia e comandar o mais velho. E para o profissional experiente, resta aceitar e saber aproveitar esse movimento crescente de profissionais jovens ocupando cada vez mais postos de comando.

Na opinião de Irene, a empresa que quer se dar bem tem que trabalhar na diversidade, com profissionais de diferentes idades, sexos e condições físicas. Pessoas que tragam visões distintas para dentro da organização. "Essa miscelânea de visões é que fará a empresa mais produtiva", defende Irene. Além disso, a consultora acredita que com profissionais mais jovens e outros mais experientes que dividam o mesmo espaço é muito saudável e valioso. "Há funções em que funcionam melhor características como agressividade, impulsividade e outras que exigem cautela, estratégia e experiência. Em um mercado globalizado é preciso valorizar diferentes competências e perfis", conclui Irene.

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