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Atitude no intercâmbio faz diferença

      

Por Marcel Frota

A visão do repórter

Quando estive em Toronto no ano passado, aproveitando as férias mais para aprender e menos para descansar, me saltava aos olhos ver como alguns conterrâneos sofriam por pura teimosia. A primeira coisa que me incomodava era o fato de sempre algum colega me dizer que seria impossível evitar os brasileiros. Eu sabia que seria difícil, mas por outro lado ninguém me obrigaria a falar em português. Me recusava simplesmente. Com isso em mente, foi mais fácil do que imaginei. Um dos maiores parceiros de andanças na cidade foi um brasileiro. Mas havia um acordo tácito entre nós, de maneira que nunca ouvi uma palavra dele na nossa língua nativa, nem ele de mim. E isso, em nada, atrapalhou a disposição para descobrir Toronto.

Por outro lado, era até constrangedor ver alguns brasileiros falando português e, quase sempre, discutindo assuntos como diferenças no cardápio e nos costumes. Francamente, quem viaja 10 mil quilômetros acha mesmo que será tudo igual? Desde o começo ficou claro para mim que eu tinha duas opções: seguir como gado no grupo ou aproveitar de verdade tudo que havia naquela viagem para mim. Optei pela segunda. Logo, evitei ficar com os estudantes de minha escola, porque era difícil entender o seu inglês sofrível (não que o meu fosse muito melhor, mas se a ideia era aperfeiçoar, precisava ter contato com nativos). Decidi que tinha de fazer as pessoas falarem comigo. Perguntava tudo pela rua. Perguntava coisas que já sabia, questionava caminhos que já conhecia (ou não). A proposta era conversar com essas pessoas.

Em casa era a mesma coisa, sempre aproveitava a chance de papear com o casal que me hospedou, Laurel e David. Não perdia uma partida de futebol canadense na televisão, quando David me explica a diferença entre o jogo deles para o dos estadunidenses. Também abusávamos do canal de automobilismo, que como eu, ele adora. Conversávamos sobre Fórmula 1 e Nascar. Estimular essas interações foi minha arma particular para superar a carência em alguns momentos. E pode apostar, ainda que você fale a língua local em alguma medida, é imensamente difícil expressar seus sentimentos em outro idioma e você vai querer fazer isso diante de tantas novidades.

Outro exemplo aconteceu no dia do jogo do Brasil contra a Argentina, pelas eliminatórias da Copa do Mundo. Os bares de Toronto não davam a mínima para o clássico e Laurel não tinha a menor noção de onde eu poderia assistir àquele jogo. Tentamos um dos 235 canais que ela tinha em casa. Nada. Tentei na Internet, mas o mecanismo de busca mais famoso do mundo, quem diria, sucumbiu sem resultados conclusivos diante de um mero: "futebol Toronto Brazil Argentina". Ken, o filho de Laurel, foi minha melhor chance, apesar da total falta de empatia entre nós. Me deu a dica da Little Portugal, um bairro de portugueses, como o nome sugere, em que muitos brasileiros haviam estacionado ao longo dos anos pela conveniência da língua (sempre ela).

Sábado à noite, chegar num ambiente que muito me remeteu aos bares brasileiros foi quase que o esquenta de uma balada (eu estava de férias), com direito a um joguinho da seleção contra los hermanos. Nem o fato de perder o primeiro tempo me aborreceu. Assisti ao segundo tempo com gosto, o Brasil marcou ainda mais uma vez e fechou o placar em 3 a 1. Comecei a reparar em volta e ver se podia arranjar algo para fazer depois dali, mas a maioria era de imigrantes que levavam uma vida real em Toronto, ou seja, não estavam na mesma situação que eu, que queria arranjar um lugar interessante para ir num sábado a noite. A maioria deles tinha trabalho a fazer no domingo, eu estava de férias. Mais uma vez usei a lógica de que ou eu fazia acontecer ou ia para casa dormir. Reparei num grupo de amigos que aparentavam ser da minha faixa etária e que falavam sobre a partida em inglês. Me chamaram a atenção pelo fato de serem os únicos a conversar na língua local ali dentro, aquela ilha de Brasil montada por uma família mineira que vendia sonho de valsa, cerveja brasileira e coxinha.

Foi então que ouvi um deles se dirigir à garçonete em português. Apliquei a lógica que tanto me ajudava no aprendizado da língua: perguntava algo que não me interessava ou que eu já sabia. Abordei o sujeito e perguntei quem havia marcado o primeiro gol do Brasil. Me confirmou que fora Luisão e a partir dali começamos a conversar sobre futebol e perguntei o que ele fazia no Canadá, esse tipo de coisa. Depois de um tempo, ele me disse que iria com os amigos para uma festa numa galeria de arte em que um deles tinha conhecidos expondo. Era próxima ao bar e ao Centro da cidade, aceitei o convite. Chegando lá o grupo logo me apresentou outras pessoas e aquilo que parecia uma noite perdida sob a frustração de não assistir ao jogo, se transformou numa balada interessante. Conheci bastante gente e me diverti muito. Em outro momento de oportunismo, ainda descolei uma chance com conhecer os famosos after hours de Toronto quando um segurança da galeria puxou papo comigo e uma moça, que falava sobre sua escultura. Era um coreano que fazia bicos como segurança, mas que sonhava em encontrar um trabalho mais estável para nunca mais voltar para seu país.

Depois fiquei pensando, foi tudo uma questão de atitude. E nada melhor do que esse tipo de coisa para fazer seu aprendizado da língua decolar. Aprendi muito mais fora da escola do que durante as aulas. A fluidez vinha nessas ocasiões, ao ponto de eu mesmo me surpreender como tinha sido capaz de conversar por tanto tempo com estranhos numa língua estrangeira.

Embora não haja nenhuma pesquisa que quantifique satisfação na mobilidade acadêmica, não é raro encontrar intercambistas que enfrentam problemas de adaptação ou que têm dificuldades de realmente aproveitar a viagem pela qual tanto tempo e planejamento dedicaram. Representantes de agências de intercâmbio ouvidos pelo Universia confirmam que, embora não sejam maioria, os casos de estudantes que se frustram ainda ocorrem. Entretanto, uma conversa com esses intercambistas revela que muitos problemas poderiam ser evitados com uma mudança de atitude em relação à realidade que encontram no exterior. Em alguns casos, a total falta de atitude é a responsável pela monotonia da viagem. O deslumbre associado ao preconceito pode ser a equação perfeita para a frustração. Quem está acostumado a lidar com estudantes garante que não é difícil eliminar tais problemas, depende de cada um.

"Atitude faz toda a diferença. Quando um estudante intercambista não se envolve na cultura, só anda com brasileiros, não procura falar na língua local, terá aproveitamento muito menor. Precisa ter a mente aberta. As coisas no exterior não são melhores ou piores, são diferentes. Precisa se convencer disso antes de mais nada, ou seja, tem de ter a cabeça aberta para o diferente", explica Betty Woodyatt, diretora da agência Experimento Intercâmbio. "Quando alguém decide ir para um intercâmbio, deseja ir para fora do País, conhecer uma cultura e coisas diferentes. A atitude é a primeira influência que terá impacto, que fará a pessoa ir além do comum", acrescenta Santuza Bicalho, diretora-executiva da STB.

Segundo Betty, para que o estudante internacional construa essa consciência precisará saber exatamente o que quer antes mesmo de escolher um curso e ou se aventurar fora do país. "Tem de definir o objetivo da viagem, vai ser estudo, diversão, enfim. Quando um estudante decide ir para o exterior, tem de saber muito bem o que quer e isso passa pela escolha do país e do curso. E hoje em dia há opções para os diferentes tipos de pessoa. Antes de procurar um curso no exterior é bom que tenha claro consigo mesmo o que se quer: gosta de frio, calor, cidade grande, pequena, conhece a língua...", acrescenta ela.

Esse processo de mudança de atitudes é bastante subjetivo. Afinal, cada pessoa tem suas características e, portanto, o trabalho é individual. Assim mesmo, Gabriel Canelas, gerente de intercâmbio da CI, enumera algumas atitudes que devem ser evitadas pelos estudantes durante suas estadias fora do Brasil. De acordo ele, coisas como falta de iniciativa, timidez excessiva e o que chamou de "viver o Brasil fora dele" podem prejudicar sensivelmente a empreitada no exterior.

Além disso, o gerente da CI alerta para outra prática altamente prejudicial no convívio fora do Brasil: o uso exagerado das comunidades sociais. "Isso é pior do que aqueles que ficam só no grupinho de brasileiros. Esses podem até não aprender muito a língua local, mas pelo menos conhecem um lugar diferente. Já os que ficam pendurados em orkut, facebook e outras comunidades, nem o lugar conhecem direito", afirma ele.

Essas iniciativas, necessárias para melhor aproveitamento do ambiente estrangeiro começam, literalmente, dentro de casa. Canelas declara que até mesmo a busca da integração com a família hospedeira (a escolha por casas de família é a mais indicada para melhor adaptação dos estudantes com a cultura local), depende mais do intercambista do que dos anfitriões. "Sempre explico, principalmente para os mais jovens, que quando se fica numa casa de família durante o intercâmbio, 80% da adaptação depende do estudante. Aqui no Brasil não estamos muito acostumados a receber estrangeiros e quando recebemos fazemos de tudo por ele. Lá fora não é assim, essas famílias que hospedam fazem isso com frequência, não tem novidade para eles nisso. Quando chegamos lá, somos somente mais um e eles esperam que o estudante tome a iniciativa. As famílias deixam para o estudante escolher se vai participar da rotina da casa ou se vai usar a casa só para dormir", diz o gerente da CI.

Causa e efeito

A dificuldade de alguns estudantes em aceitar as mudanças do país em que estão vivendo esbarra até na falta de responsabilidade, em alguns casos. A diretora da agência Experimento Intercâmbio conta que existem modalidades de viagem em que o estudante recebe permissão dos governos locais para que trabalhe durante os estudos, há também programas de trainee, voltados àqueles que terminaram a faculdade e querem adquirir uma experiência profissional diferente em outro país. Betty revela que alguns desses intercambistas se recusam a permanecer no posto por não aceitarem ficar longe do Brasil em ocasiões especiais. Pode parecer inacreditável, mas alguns abandonam tudo para fanfarrear no Carnaval. "Tem empresa nos Estados Unidos com quem trabalhamos que não querem mais brasileiros porque muitos voltaram para cá no Carnaval", destaca ela.

Betty reafirma os malefícios dessa relação que os brasileiros desenvolvem entre si longe das fronteiras nacionais. "Acho que é cultural. O brasileiro me parece ter essa necessidade de estar com o grupo e isso não é tão comum com outros povos. Como ele não encontra essa receptividade com os estrangeiros, que se comportam de outra forma, procura outros brasileiros para buscar neles o que não encontra nos estrangeiros", acredita ela, embora não ache de todo ruim esse comportamento. "Atrapalha se só ficar nisso, o único prejudicado é o próprio estudante. Não é para não conviver com brasileiros, mas não pode se restringir a isso. O legal é fazer amigos do mundo todo, especialmente do país que foi visitar", completa ela.

Santuza reconhece que alguns intercambistas têm uma visão relativamente deslumbrada da vida fora do Brasil e que podem acabar se decepcionando por causa disso. Ela lembrou a o caso de uma estudante que estava na Itália e que fazia comparações pejorativas entre o bairro em que morava lá e locais que repudiava aqui. "Ela disse para a família que o mercado que havia próximo à casa em que morava era igual a 25 março (tradicional centro de compras popular no centro de São Paulo)". Esse é um exemplo de como o preconceito também tem papel importante numa situação como essa. Mas assim como há o lado ruim da coisa, Santuza lembra de uma história em que a atitude fez toda a diferença para o lado bom e transformou uma viagem aparentemente monótona em algo empolgante.

"Tive um caso de um rapaz que foi para uma cidade pequena nos Estados Unidos. Lá não tinha nada para fazer além da rotina da cidade. Ele queria encontrar oportunidades de diversão, que não havia naquele lugar. Esse estudante acabou encontrando um asilo nos arredores da cidade e passou a visitar o local com frequência. Algum tempo depois, decidiu organizar um concurso de dança nesse lugar. A ideia pegou e a coisa acabou movimentando a cidade toda. Quer dizer, foi a atitude dele que fez a diferença", exemplifica ela.

Assim como Canelas fez uma pequena lista de comportamentos que o estudante que está a caminho da mobilidade acadêmica fora do Brasil precisa evitar, Santuza resumiu o que considera a receita certa para que o intercambista aproveite ao máximo sua viagem, evite preconceitos em relação à cultura local e consiga ser feliz, mesmo longe de casa e da família, numa situação que reconhecidamente pode fragilizar qualquer um. "Leve sua bagagem o mais aberta possível para trazer o diferente de volta. Não ponha suas certezas das coisas como são aqui. Não compare, não julgue, procure entender o que se passa. Pergunte, converse e esteja disposto a ouvir. A pessoa tem de ir disposta a receber", sugere ela.

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