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“Aprendizagem precisa de um olhar de rede”, diz especialista

      
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Notícia atualizada em 30/07/2015 às 16:45

 

Uma sala de aula sem muros. No final dos anos 1950, imaginar uma escola integrada às inovações tecnológicas sem qualquer delimitação espacial parecia uma proposta ousada ou quase ofensiva aos métodos tradicionais de ensino. Como poderia uma instituição centrada na figura do professor e fundamentada nos livros usar como materiais didáticos os meios de comunicação de massa que tratavam basicamente do entretenimento?

 

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Marshall McLuhan, teórico da comunicação, tinha um posicionamento diferente: acreditava que a lentidão das mudanças no sistema educacional frente à velocidade das mídias eletrônicas era a principal razão para se preocupar.

No artigo “Classroom without walls”, publicado em 1957 na revista Explorations, McLuhan defendia que os veículos de comunicação de massa representavam na educação apenas mais uma inovação em termos de linguagem. A imprensa, rádio, filmes e televisão não seriam um obstáculo para a educação, somente se tornariam outros instrumentos nas mãos dos professores.

Quase sessenta anos se passaram desde a publicação deste artigo do criador da máxima “o meio é mensagem” e, hoje, a inserção das tecnologias na sala de aula ainda divide opiniões.

Em conversa com a Universia Brasil, o fundador do LINNEA (Laboratório de Inovação em Experiências de Aprendizagem na América Latina) e presidente da Cengage Learning | National Geographic Learning para a América Latina, Fernando Valenzuela Migoya, disse que há uma disparidade entre os métodos de ensino adotados e o perfil dos estudantes, professores, instituições de ensino e até mesmo da família do século XXI. “Tudo isso tem que ser olhado porque a aprendizagem hoje precisa de um olhar de rede, não mais um olhar estrutural.”

O JOVEM COMO SUJEITO DA EDUCAÇÃO

Para Valenzuela, houve uma mudança no perfil dos jovens e, por isso, é importante que este fator também seja observado para a construção das novas experiências educativas. Ele aponta que, além das alterações de comportamento e engajamento dos estudantes (como dispor de apenas sete segundos de atenção), as habilidades ensinadas em aula não condizem com as necessidades que serão encontradas no mercado de trabalho no futuro. “As capacidades desse trabalho ainda não foram ensinadas porque ele não foi inventado ainda”, explicou.

Outro aspecto relevante é o fato de que os adolescentes não ficam mais desconectados. Embora alguns professores encarem esta situação como um problema, Fernando Valenzuela Migoya acredita que isso trouxe algumas vantagens para os alunos. “Hoje, eles têm acesso às informações e uma voz que não tinham no passado. E não é a tecnologia que faz ou deixa de fazer. É a experiência que você cria para o uso dela. O estudante deve assumir na sala de aula um papel análogo ao de um explorador da National Geographic ou um palestrante das TED Talks para não voltar a um modelo do século XIX. A educação tem que começar no século XXI e manter o estudante engajado com temas e tecnologias do século XXI."



Por outro lado, Valenzuela reconhece que há um lado negativo: “como qualquer comportamento humano, a tecnologia tem um lado obscuro: o cyberbullying, privacidade... Por isso que não é ela por si só que vai resolver. É a tecnologia conectada a um professor curador de conteúdo que cria uma experiência de aprendizado valiosa e a um estudante que a utiliza para engajar-se e criar sua própria experiência”, afirmou.

 

EXPERIMENTAÇÃO DOS PROFESSORES

Para o executivo, a "ideia do docente como dono do conteúdo ficou no meio da chegada da tecnologia”, já que com o acesso à internet os adolescentes podem saber tanto quanto o professor e compartilhar informações com um alcance ainda maior. O papel do professor seria o de um curador de conteúdo, ou seja, um guia que apontaria aos alunos as direções que eles podem seguir. "Não há por que os docentes tentarem superar o conhecimento tecnológico dos alunos. Acredito que o professor nunca vai ter o mesmo nível de relacionamento com a tecnologia que um estudante. O professor tem que encontrar um outro jeito. Para mim, ele tem que deixar que o conhecimento e a experiência sejam criados juntos com os alunos." 

 

Valenzuela descarta a possibilidade da substituição do professor pelos gadgets ou seu uso para reimplantar o que já está sendo feito na sala de aula – motivos que costumam gerar certa resistência no corpo docente para a adoção da tecnologia. “A gente já provou que impor uma missão para o docente ou para o aluno não tem sucesso. Então, acho que é só dar a liberdade para o professor experimentar e recomendar que aquela experimentação não seja criada por ele para o aluno. Ela deve ser cocriada entre os dois, juntos. Aí sim o resultado será bem melhor”, conclui.

 

INOVAÇÃO NA SALA DE AULA

A falta de investimento costuma ser uma queixa nas escolas para tornar este novo modelo de ensino uma realidade, já que construir uma infraestrutura que permita estas experiências inovadoras é bastante caro. Mas será que é mesmo? Segundo Valenzuela, milhares de dólares têm sido gastos com compra de iPads e outros aparelhos quando, na verdade, a tecnologia está sendo introduzida na sala de aula de outro modo. “Às vezes, as instituições estão esperando ter a plataforma pronta e a tecnologia está chegando do outro lado, ela já está vivendo nas mãos dos jovens. Então, não tem que ter toda a infraestrutura pronta. É ver qual é a tecnologia que hoje o estudante tem acesso e criar uma experiência a partir dela.”.

 

Para ele, o grande empecilho para as instituições de ensino é a governabilidade: “dependendo da idade dos estudantes, o professor, aluno, instituição e os pais têm que ter uma voz equilibrada para as decisões de tecnologia. Para mim, a escola tem que criar um ecossistema que permita a tecnologia, não um ambiente para impor, forçar ou dirigir linearmente”, finalizou.

 


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