text.compare.title

text.compare.empty.header

Notícias

Como chegar ao top da educação?

      
Como chegar ao top da educação?
Como chegar ao top da educação?  |  Fonte: Shutterstock

Vice-presidente acadêmico da Laureate Brasil, prof. Dr. Oscar Hipólito fala como alcançar o melhor da educação

Quando o Santander Universidades convidou a Laureate Brasil para ser a instituição coordenadora do Programa Top China 2016, delegando a responsabilidade de acompanhar os alunos e professores selecionados para participar do projeto, logo imaginamos: devemos aproveitar essa oportunidade para entender, in loco, como os chineses conseguem educar em grande escala com muita competência. Identificar mecanismos ou, ao menos, algumas ferramentas que poderíamos aqui utilizar, com o objetivo de fortalecer nossas estratégias para formação massiva de mão de obra.

O grupo, constituído de 63 estudantes e 23 professores, das mais variadas Instituições de Ensino Superior do Brasil, ficou dividido entre duas das mais conceituadas universidades chinesas, Shanghai Jiao Tong University, na cidade de Xangai, e Peking University, situada em Pequim.

A cidade de Xangai (19,213 milhões de habitantes), liderou os três rankings do Pisa 2012, último divulgado, aparecendo com os melhores desempenhos em matemática, leitura e ciências, dentre as 65 economias avaliadas pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). A Shanghai Jiao Tong University é a sexta melhor dentre os BRICS e a 70ª a melhor do mundo, segundo ranking da QS Stars de 2015/2016. A Peking Univesity é a segunda melhor dos BRICS ( Brasil, Rússia, Irlanda, China e África do Sul) e a 41ª do mundo.

Ao longo das três semanas de atividades, compreendendo visitas, aulas proferidas por professores brasileiros e chineses a turmas igualmente mistas de estudantes chineses e brasileiros, pudemos conhecer a fundo o que havia de especial. Estivemos reunidos com a alta direção acadêmica dessas instituições e podemos afirmar que ambas são amostras interessantes dos instrumentos de formação superior dessa potência asiática. Os detalhes mais interessantes desse intercâmbio acadêmico e cultural, descobertas e percepções, estão relatados a seguir.

Primeiro, é importante contextualizar esse povo que vem chamando a atenção do mundo por seu potencial de consumo e crescimento a percentuais invejáveis para qualquer Nação – registrando uma média anual de quase 7,5% nos últimos 12 anos, segundo dados do Escritório Nacional de Estatísticas do país. Com 1,42 bilhões de habitantes, os chineses representam 18% da população mundial. Anualmente, mais de 9 milhões de jovens que terminam o ensino médio, fazem o exame nacional de admissão para as universidades, uma espécie de "ENEM chinês", chamada de ‘Gaokao’. Diferentemente do Brasil onde uma parcela significativa de jovens acima de 24 anos ingressam no ensino superior, na China os ingressantes têm idade inferior a 24 anos.

Essa é a idade máxima para participar do exame unificado que dá ingresso às mais de 1.700 universidades e escolas técnicas públicas do país, praticamente todas elas de acesso gratuito, é de 24 anos. A partir desta idade, o chinês acaba seguindo a chamada ‘adult school’, que oferece cursos curtos e de educação continuada. Mas esse é um capítulo diferente da formação da mão de obra chinesa, que ficará para uma próxima discussão.

Existe uma nova geração de chineses que se beneficia da iniciativa nacional, desencadeada há cerca de uma década, com o objetivo de aumentar o volume do 'capital humano' com diploma superior. Nesse período, por exemplo, duplicou o número de faculdades e universidades e está a caminho de se equiparar, dentro de cinco anos, com o atual índice de jovens de 18 anos formados no ensino médio dos EUA, de 75%. No Brasil, a taxa líquida - que leva em conta apenas as matrículas no ensino superior de estudantes na faixa etária de 18 a 24 anos - é de cerca de 13%.

Para se desenvolver, a China está investindo anualmente cerca de US$ 250 bilhões na promoção de uma educação mais ampla, que se parece bastante com as forças de trabalho multifacetadas dos EUA e da Europa. O objetivo é modificar o sistema atual, em que uma pequena elite altamente educada supervisiona exércitos de trabalhadores industriais semitreinados e de trabalhadores rurais. Essa crescente oferta de profissionais universitários na China já vem sendo identificada como uma reserva de talento que as corporações globais como IBM, General Electric, Intel e General Motors, só para citar algumas, vem contratando nas universidades chinesas. Até o final da década, a China pretende ter cerca de 195 milhões de formandos no ensino superior.

Utilizando salas de aula extremamente simples, basicamente formadas por quadro negro, um data show e um professor – algumas turmas também contam com um monitor para dar apoio – os chineses recebem uma educação tradicional. Uma vídeo câmera, que permite o monitoramento externo do desempenho acadêmico do professor durante as aulas, é um detalhe peculiar e até esperado para um país que mantém um alto controle político e civil da população. Importante observar que essas câmeras pouco inibem os mestres de expressarem suas posições sobre o regime chinês, descrito como ‘socialismo de mercado’, tanto em sala de aula, quanto nos debates que tivemos com professores, reitores e estudantes, ao longo dos encontros que marcaram nossa estada no país.

Foi no ambiente de sala de aula que residiu a nossa primeira quebra de expectativa. Encontramos ambientes simples onde se desenvolvem as mais tradicionais metodologias de ensino. Nada de aula-show, metodologias ativas ou grandes esforços para conseguir atrair a atenção do aluno. Nas salas de aula chinesas, que nos parecem em muito espelhadas nas americanas, os jovens assistem aulas/palestra de 2h, em total silêncio, ouvindo o professor, sem debates ou questionamentos. Depois da aula, o professor vai para sua sala e fica à disposição dos alunos para tirar dúvidas, muito similar ao que acontece em nossas tradicionais universidades públicas brasileiras.

Semelhanças que param por aí. Na Shanghai Jiao Tong University, mais da metade dos 40 mil alunos moram nas residências próprias do campus. Isso quer dizer que eles estão integralmente dentro das instalações, vivendo a universidade. Para uma parcela desses alunos, estudar não custa nada. É que, caso o jovem esteja disposto a seguir os planos traçados pelo governo para sua formação - com base em avaliações e acompanhamento curricular das suas competências e habilidades, bem como na demanda de mercado da região onde ele reside - os custos de vida, educação ou até para a compra de um imóvel, podem ser bem baixos ou quase nenhum. Caso contrário, os valores cobrados para cursar uma universidade, por exemplo, são altíssimos, bem como o preço do imóvel em capitais que, superlotadas, já não suportam mais a migração.

O mesmo acontece para os professores universitários. Na China, que não possui uma legislação trabalhista como no Brasil, o salário de um professor renomado e que pode contribuir significativamente para os planos do país, pode chegar a valores extremamente elevados. Tudo graças a uma modalidade de contratação específica, que atrai para o país talentos invejáveis, que serão remunerados de acordo com suas qualificações e projetos. É a chamada gestão por resultado que, na verdade, está intimamente ligada à meritocracia.

Diante deste cenário: alunos 100% dedicados aos estudos, professores bem remunerados e também focados no desenvolvimento de suas atividades, temos um outro fator que merece ser citado aqui: a cultura. Além de passar a manhã e tarde na escola, os alunos da China estudam em casa quase três vezes mais que a média mundial. A maioria gasta, em média, 13,8 horas diárias fazendo lição de casa, segundo o governo chinês. A média mundial é de 4,9 horas. É tanto tempo dedicado à educação, que discute-se, atualmente, como minimizar a estafa que toda essa carga de estudos, resultante da pressão que eles carregam para conquistar uma colocação no mercado de trabalho.

Mais introspectivos e extremamente engajados em suas tarefas, estudantes e professores chineses se juntaram ao grupo de brasileiros e passaram três semanas compartilhando as mesmas salas de aulas. Uma experiência que, sem sombra de dúvidas, mexeu com a rotina e, principalmente, percepção de mundo de todos. Do nosso lado, um grupo muito bem selecionado de brilhantes alunos de universidades públicas e privadas e professores igualmente destacáveis em suas áreas e instituições, levaram para a China seus conhecimentos e mecanismos de ensino. Dois dos estudantes brasileiros pertencem à rede Laureate de Universidades: Gabriela Oliveira, do 7º semestre de Direito da Faculdade Internacional da Paraíba, em João Pessoa, que fez em inglês fluente um brilhante discurso de abertura do evento, e Barbara Saião, que estuda Turismo na Anhembi Morumbi, em São Paulo.

Ao final do programa, grupos mistos de alunos apresentaram seus trabalhos, em boa parte, fazendo uma reflexão sobre as diferenças e semelhanças das duas metodologias de educação. Tanto nesses trabalhos, quanto nas conclusões dos acadêmicos, ficou notório que, apesar do longo caminho a ser percorrido, há uma possibilidade real do Brasil atingir os padrões de desempenho e qualidades da China. Não há uma receita simples, mas professores qualificados e engajados no processo educacional, e alunos mais bem preparados, com mais tempo para se dedicarem aos estudos podem ser apontados como a base dessa transformação.


Tags:

Aviso de cookies: Nós usamos cookies próprios e de terceiros para melhorar os nossos serviços , para análise estatística e para mostrar publicidade. Se você continuar a navegar considerar a aceitação de seu uso nos termos estabelecidos nos Política de Cookies.