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Entrevista

"Os cérebros brasileiros deveriam ser valorizados para que desenvolvam suas pesquisas no Brasil com menos burocracia", afirma docente da UFTM

      
Os cérebros brasileiros deveriam ser valorizados para que desenvolvam suas pesquisas no Brasil com menos burocracia, afirma docente da UFTM

Wendell Sergio Ferreira Meira

Docente da Universidade Federal do Triangulo Mineiro (UFTM)

A expressão “fuga de cérebros” tem se tornado uma preocupação nas universidades, já que pesquisadores têm deixado o Brasil para desenvolver suas pesquisas no exterior. Para discutir este assunto, convidamos o professor doutor Wendell Sergio Ferreira Meira e o professor Acir Mário Karwosk, docentes da Universidade Federal do Triangulo Mineiro (UFTM) para falar sobre o tema. Confira:

 

O que significa a expressão “fuga de cérebros” e qual a realidade no Brasil?

Há diversas acepções acerca da expressão “fuga de cérebros”. Uma diz respeito ao nível de motivação do pesquisador diante do pouco apoio governamental que existe no Brasil. Há muitos impedimentos burocráticos para importação de materiais para pesquisa, a exemplo das imposições do comitê de ética em pesquisa com seres humanos, além das questões relacionadas aos contratos de trabalho de dedicação junto às universidades públicas, especialmente às federais. A pesquisa em universidades privadas, por sua vez, é muito rara, há poucos grupos de pesquisa nessas instituições. A predominância é nas instituições públicas estaduais e federais. No exterior, a pesquisa é fortemente valorizada nas universidades e isso motiva pesquisadores. No Brasil, a pesquisa depende das agências de fomento (CNPq, CAPES, FINEP, FAPEMIG, FAPESP, por exemplo) e nem todos os docentes das universidades com título de doutor conseguem financiamento para seus projetos. Além do mais, há poucos recursos financeiros disponíveis no orçamento anual das instituições exclusivamente à pesquisa, já que grande parte deles se destina ao custeio dos programas de pós-graduação. E não adianta implantar um modelo de gestão dos laboratórios de pesquisa em parceria com a iniciativa privada, porque as patentes e inovações deixam de ser públicas para ficar na mão das indústrias e empresas interessadas pelo capital intelectual produzido nas universidades. Seria a privatização da universidade. Para que isso não ocorra, a legislação quanto à autonomia universitária deveria ser urgentemente revista e atualizada para as necessidades do século XXI.

Quais são os fatores que influenciam as pessoas a considerar deixar o seu país para trabalhar ou estudar no exterior?

Atualmente, com a crise financeira, não há motivação para estudar no exterior diante das flutuações nas taxas de câmbio. Mas, um dos fatores que desmotiva o brasileiro a cursar uma graduação ou pós-graduação em outro país é a dificuldade que enfrentará ao voltar com relação à revalidação do diploma ou reconhecimento do curso de pós-graduação obtido no exterior. A legislação brasileira é muito engessada nesse sentido.


Quais são as áreas de conhecimento e setores produtivos que são mais propensos a fuga ou roubo de cérebros?

Medicina, na Bolívia, é um curso que atrai muitos brasileiros. Há setores produtivos, como o Agronegócios, Engenharias e Tecnologias que ainda estimulam a ida de brasileiros para o exterior para estudar nos Estados Unidos ou na Europa, por exemplo.


Quais são as implicações econômicas e sociais da fuga de cérebros?

Os cérebros brasileiros deveriam ser valorizados para que desenvolvam suas pesquisas no Brasil, com menos burocracia e maior liberdade quanto aos investimentos de recursos públicos ou recursos captados de fontes da iniciativa privada. O tempo de espera para aprovar um projeto de pesquisa e implementar no País é muito demorado, sem mencionar o tempo de espera para registro de patentes. Não é à toa que o Brasil não tem prêmios tais como o Nobel. A meritocracia no Brasil não é valorizada em virtude do imbróglio da legislação, que é muito complexa e subjetiva. As agências de controle (AGU, TCU e auditorias) impõem uma legislação que, muitas vezes, desmotiva o pesquisador a dar andamento em projetos de pesquisas inovadores, com tendência empreendedora e de grande impacto internacional. Os poucos centros de excelência de pesquisa no Brasil produzem muito pouco diante do potencial que poderiam ter.


Qual o papel da universidade e do governo com relação a este problema? Existe alguma outra instituição que deva participar na resolução deste?

A autonomia universitária deveria ser uma realidade plena no Brasil. As universidades públicas dependem dos mantenedores, que são o próprio Governo e seus ministérios ou secretarias. No caso das federais, o mantenedor é o Ministério da Educação. Mas esse órgão não tem recursos suficientes para garantir o Plano de Desenvolvimento Institucional de cada uma das suas universidades. Assim, abre mão de editais e de financiamentos esporádicos para instaurar competitividade interna e também entre as universidades federais. Nessa disputa, as pequenas ou os campi do interior sempre saem em desvantagem. Então, como manter a pesquisa de excelência com autonomia universitária sem recursos financeiros da mantenedora? A solução para este problema seria o Governo Federal analisar e aprovar o Plano de Desenvolvimento Institucional de cada universidade federal e garantir os recursos financeiros para custeio e capital, abrindo mão de editais e visando atender verdadeiramente o tripé ensino, pesquisa e extensão nas universidades federais. O atual modelo de gestão por meio de editais e chamamentos públicos promove uma competição e corrida por recursos públicos que não respeita a autonomia das universidades e desestimula docentes em inicio de carreira, principalmente.


Quais são as perspectivas para a fuga de cérebros no País nos próximos quatro anos?

Se as universidades federais não forem atendidas plenamente quanto à autonomia financeira para os planos institucionais de desenvolvimento, com garantias de recursos para capital e custeio, a tendência é o sucateamento dos laboratórios de pesquisa e, assim, fuga de pesquisadores do Brasil. Para que haja desenvolvimento no País, deveria haver um Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) para escolas públicas e universidades federais que, em sua maioria, passam por uma geração de depreciação natural dos espaços físicos. Prédios construídos na década de 60 precisam de reparos urgentes. Um bom investimento em infraestrutura ajudaria a manter projetos de pesquisa e, assim, auxiliar o Brasil a crescer e de desenvolver social e economicamente. Tudo passa pela educação, mas sem infraestrutura de século XXI as escolas e universidades públicas deixam a desejar por falta de condições físicas e estruturais.



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