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Entrevista

"Infecção pelo vírus HIV no Brasil é multifatorial", diz professor da UFSJ

      
Infecção pelo vírus HIV no Brasil é multifatorial, diz professor da UFSJ

Gustavo M Rocha

É professor de Infectologia da Universidade Federal de São João Del-Rei

A série Entrevistas traz nesta quarta-feira (30) o tema Aids. Em julho passado, a agência Onusida apresentou o Programa Conjunto da ONU sobre o HIV/Sida citando que os novos casos de HIV não diminuíram suficientemente. O professor de infectologia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) comenta o tema:

 

Quais as razões para a taxa de infecção no Brasil não cair significativamente?
A questão é multifatorial. Primeiramente, e provavelmente mais importante, existe a questão do comportamento sexual de risco. O uso de preservativo de forma consistente ainda é baixo no país, especialmente entre os jovens. Diversos estudos comprovam que as pessoas cada vez mais iniciam a vida sexual mais cedo, têm maior número de parcerias sexuais e usam menos preservativos. Isso é um fenômeno mundial, pode-se até afirmar que vivemos um momento de uma nova liberação sexual. O fato da infecção pelo HIV ter se tornado uma doença crônica potencialmente controlável com medicação, ou seja, deixou de ser uma doença grave e letal, desde que se faça o tratamento correto, também ajuda a banalizar a própria infecção e, consequentemente, leva os jovens a deixar de usar preservativos nas relações sexuais. Além disso, associa-se a baixa testagem anti-HIV da população geral (por medo, estigma, preconceito, desconhecimento), baixo acesso aos serviços de saúde e consequentemente à terapia antirretroviral, e ainda uma baixa adesão ao tratamento. Uma das principais maneiras de reduzir as novas infecções seria tratando de forma correta o maior número possível de pacientes com HIV. Isso somente seria possível se houvesse ampliação da testagem, da assistência e do tratamento. Assim, é importante identificar as pessoas portadoras do vírus, aconselhá-las sobre comportamento, tratá-las e acompanhá-las de forma correta. É importante ressaltar que o Ministério da Saúde garante tratamento antirretroviral de forma universal, a todos as pessoas que vivem com HIV e aids.



Qual o setor mais afetado da população? Por quê?
A epidemia do HIV no Brasil, à semelhança de outros países da América e Europa, é considerada concentrada em algumas populações-chave, entre elas, usuários de drogas ilícitas, trabalhadores do sexo e, principalmente, homens que fazem sexo com outros homens (HSH). Enquanto que a estimativa da prevalência da infecção pelo HIV na população geral é de aproximadamente 0,5%, entre a população de HSH esta estimativa chega a 14%. Isso acontece porque, além das questões comportamentais, existe um risco biológico muito maior de transmissão do vírus em relações sexuais anais desprotegidas, em decorrência da fragilidade da mucosa anal e da ausência de barreiras imunológicas locais. Assim, percebe-se claramente que a maioria dos casos novos atualmente ocorre entre jovens gays. Esse cenário é muito parecido nos Estados Unidos e outros países do mundo.


Como deveria ser a atuação do governo, as instituições de saúde públicas e privadas para a estigmatização da doença?
Num primeiro momento, claramente necessita-se de ampliação da testagem anti-HIV e da assistência ao paciente que vive com HIV e aids, com investimento e infraestrutura e valorização dos profissionais que atuam na área. Além disso, é fundamental o incentivo ao uso do preservativo, assim como abordar diretamente a questão do risco aumentado do sexo anal na transmissão do vírus. Assim, uma estratégia importante seria abordar o tema sexualidade e educação sexual na escola, entre adolescentes, antes do início da atividade sexual.



As informações sobre o HIV / AIDS estão atualizadas, são suficientes e de qualidade? Estão disponíveis para todos os setores da população?
Em parte. Hoje toda a população sabe que o HIV é transmitido por relação sexual desprotegida. Mas a grande maioria das pessoas desconhece a questão da diferença de risco de acordo com o tipo de prática sexual. Além disso, ainda existe um estigma muito grande em relação à doença, muitas pessoas ainda evitam realizar o teste com medo de o resultado ser positivo, pensando de forma equivocada que, uma vez sendo positivo, elas vão adoecer e morrer rapidamente. Assim, em minha opinião, é necessário ampliar o acesso às informações sobre a história natural da doença (evolução lenta) e sobre os aspectos relacionados ao tratamento (doença crônica potencialmente controlável).



Qual a qualidade de vida de uma pessoa com HIV no Brasil atualmente?
Atualmente no Brasil a pessoa que vive com HIV tem uma boa qualidade de vida, muito semelhante a outras pessoas que apresentam outras doenças crônicas, como Hipertensão Arterial ou Diabetes melitus. Mas isso somente é possível quando este paciente encontra-se em acompanhamento regular e em uso adequado da medicação. Dessa forma, a maioria dos pacientes atualmente em acompanhamento e tratamento não apresenta qualquer queixa clínica e vive uma vida cotidiana de forma tranquila, fazendo uso da medicação diariamente. O problema é que em muitos locais, além dos problemas de infraestrutura, existe uma carência de serviços públicos oferecidos, muitas vezes em decorrência da falta de profissionais médicos especializados e da baixa valorização desses profissionais.


De acordo com as declarações da ONU, mais de 50% das pessoas com HIV ainda não recebem tratamento antirretroviral. Qual a situação das pessoas com HIV no Brasil em relação ao tratamento e o que elas podem esperar para os próximos anos?
Não sabemos ao certo esta proporção no Brasil, mas certamente é elevada e próxima a este valor. Isso ocorre porque, além de muitas pessoas infectadas desconhecerem o diagnóstico (baixa testagem), o Brasil passou a recomendar o tratamento universal dos pacientes com HIV somente em anos recentes. Isso tudo sem contar o problema da baixa adesão ao tratamento e ao acompanhamento, com altos índices de abandono em alguns locais, devido a diversos fatores, incluindo problemas relacionados ao próprio paciente (baixa escolaridade, baixa renda, uso de álcool e drogas, etc), aos serviços (infraestrutura precária, baixa oferta de atendimentos, problemas de acesso, relação médico-paciente ruim, etc) e ao próprio tratamento (posologia, reações adversas, etc). Cabe ressaltar que a meta para 2020 é que 90% das pessoas com HIV conheçam seu diagnóstico, dessas 90% estejam em tratamento, e dessas 90% estejam com carga viral indetectável (controle virológico ideal). Com este controle da doença, além do benefício individual e menor risco de adoecimento do paciente em tratamento, existe uma redução da transmissão e consequentemente possibilidade de controle da epidemia.




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